domingo, 20 de outubro de 2019

Na volta da prainha, muito vento, poucas palavras. Desceu do carro, se pôs de pé e na cabeça um lenço, que ganhará vida e dançava no rosto feminino e apaixonado dela, que com os olhos sorria para o rapaz que passava do outro lado da rua, o par de olhos escuros sequer piscou de tamanha adoração, mas o rapaz não retribuiu o olhar nenhuma vez. Ela andou por vários caminhos, em nenhum deles ele estava, quando mudou a rota enfim se trombou com o sujeito; soube seu nome, sua cor favorita e o que gostava de fazer e era inevitável conter o riso no fim daquele prolongado inverno. O moço até que gostou dela, fazia graça de suas piadas e jeitos,  caiu no encantos dos olhos dela, olhos da noite e neles jurou que quis se perder. E foram alguns dias, uma ou outra noite, quase, quase nada de romance, mas um beijo finalmente aconteceu. Dizem que o touro só acaba uma tourada depois de deveras machucado ou morto, com o coração é quase a mesma coisa, corre, apanha, corre, apanha, no fim cai, e é sorte levantar de novo ou não. O coração da moça se assemelhava a breve luta pela sobrevivência do touro, o coração era como um touro, bravo, forte, destemido, mas após tantos esporros normal fraquejar, cansar
Enquanto Joker passava, sala cheia, impossível não pensar nas outras pessoas presentes, pois a mastigação massiva de pipoca era frenética e barulhenta. Nesse momento pensei nas palavras de Christopher Waltz sobre como as pessoas perdem do filme e da experiência ao comerem o tempo todo e pipocas cada vez maiores e frango, sim até frango. A questão da audição deve ser tão afetada, mas aposto que quem mastiga o pote de tamanho G nem se importe com isso. Mesmo com o filme se desenvolvendo perfeitamente diante dos meus olhos, o meu maior desejo era captar tudo, cada frame, cor, plano, fala, expressões mas não conseguia ter concentração absoluta, por mais que estivesse amando e hipnotizada, preferia cem vezes poder ver em casa sozinha no escuro em pleno silêncio, nem minha respiração penosa atrapalharia. O ambiente na minha volta trazia a mensagem do filme por vezes até duplicada, além do barulho comum do mexer e remexer nas poltronas, conversas paralelas, celulares ligados e claro, das pipocas, havia grande inquietação, aparentemente um filme de mais de duas horas é inadmissível para algumas pessoas ficarem quietas, calmas e concentradas, não consigo não me ater ao momento em que o personagem tremia as pernas com grande ansiedade e nervosismo, uma tremedeira típica de alguém imperativo, sentado exatamente ao meu lado, as duas cenas unidas, na tela e na realidade, eu expectadora de ambas, o tremor chegava até mim, eu pude sentir toda a vibração e inquietude, logo a reflexão automática sobre o que via e sentia era cada vez maior, como é complicado tentar meramente pensar sobre essas duas situações ao mesmo tempo e ainda adquirindo a cada segundo mais e mais informação para assimilar, incrível não? como que na nossa percepção, toda e cada experiência no cinema muda de acordo com quem está sentado conosco seja três fileiras abaixo, duas fileiras acima, ou do nosso lado.